Portugal: a face de uma Europa dividida

No último domingo, dia 24 de Janeiro, realizaram-se eleições presidenciais em Portugal, elegendo na primeira volta o candidato da direita, Marcelo Rebelo de Sousa. Poderá a leitora ou leitor mais desatento pensar que existe um concenso social em Portugal em torno do projeto de direita: retirar direitos e valor das pensões e do trabalho para continuar a favorecer a banca. Nada mais longe da verdade.

Em Outubro do ano passado a população portuguesa expressou-se nas urnas em favor de um projeto anti austeridade (ajuste fiscal), criando uma aritmética parlamentar que permitiu à esquerda fazer um acordo em defesa de salários e pensões (que durante estes últimos anos de austeridade chegaram a perder metade do seu valor em alguns países europeus, como na Grécia). Assim, e pela primeira vez na história da Democracia portuguesa, a esquerda parlamentar tomou a rédeas da política, sendo o maior crescimento proveniente da área da mediatizada esquerda radical, através do partido Bloco de Esquerda, passando de 8 assentos no hemiciclo para 19.

A ampliação desta esquerda começa a ser a tónica da política europeia, como se percebe em Espanha com o partido movimento PODEMOS, na Grécia com a eleição para o governo do Syriza com um programa anti austeridade (que mais tarde veio a claudicar perante as exigências da banca) ou ainda em Inglaterra, com a vitória de Jeremy Corbyn nas primárias do Labour Party (Partido Trabalhista).

Do outro lado do espectro político, também a extrema direita se encontra em crescimento por toda a Europa. Discursos populistas e práticas racistas, como a Lei aprovada no parlamento dinamarquês que confisca os bens dos refugiados acima de 1340 €, retirando a quem foge da guerra e da fome a possibilidade de recomeçar a vida, violando várias convenções internacionais e reencenando o pior que a Europa já conheceu. Em França, a Front Nacional (Frente Nacional), de Marine Le Pen, já é o principal partido da oposição. As ideias xenófobas e racistas ganham terreno numa Europa desesperada por soluções económicas que não estrangulem mais as famílias em benefício dos bancos. O discurso fácil do inimigo externo (neste caso, imigrantes e refugiados) começa a colher os seus frutos num terreno fértil de crise.

Em Portugal, por ter tido uma das mais extensas ditaduras da História (1926-1974) e ainda ser relativamente recente, a extrema direita ainda não tem a expressão doutros países europeus. A política conservadora e xenófoba vai sendo desenvolvida pelos partidos tradicionais da direita, PSD e PP, com um posicionamento menos musculado que noutros membros da UE. Temos assim uma Europa cada vez mais dividida entre propostas que levaram no passado a tragédias globais e que atualmente já desconsideram os Direitos Humanos e uma Europa que tenta sair desta senda de colocar economias inteiras a pagar os dividendos dos acionistas dos bancos nas suas aventuras e desventuras de mercado.

Veremos qual delas subsistirá, sendo que as duas não poderão coexistir.

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